“Pois, mas… como lidar com crenças instaladas há tanto tempo?”

Estávamos a meio de um DESAFIO de 5 dias, uma semana dedicada a explorar a mudança do paradigma da escassez para o paradigma da suficiência. A conversa era sobre as nossas crenças em relação ao dinheiro e o quanto elas nos limitam. A pergunta fez-me pensar nas formas subtis pelas quais se manifesta o paradigma da escassez.

Como lidar com crenças instaladas há tanto tempo?

O primeiro passo é tomar consciência de que elas existem, pois sem isso nem se coloca a questão!

E isto é suficientemente óbvio para se justificar repeti-lo: “O primeiro passo é tomar consciência de que elas existem”.

Repito o óbvio porque a nossa tendência é desconsiderá-lo e saltar imediatamente para o futuro, para a resolução do problema. O movimento interno que fazemos é algo assim “oh! Aqui está uma crença a condicionar o meu comportamento. Quando eu me livrar dela vou finalmente poder viver a minha vida. Como é que vou resolver isto?”

Este diálogo soa a familiar? Notam como há aqui dois momentos completamente distintos? No primeiro instante, “oh! Aqui está uma crença a condicionar o meu comportamento.”, estamos no momento presente, a tomar consciência de algo que está a acontecer aqui e agora. É o primeiro passo obviamente necessário. No momento seguinte saltamos para o futuro “quando eu me livrar dela” e entramos em modo de resolver problemas ou “modo problema”.

O “modo problema” é o modo de funcionamento de quando estamos a viver através do paradigma da escassez. É o modo de funcionamento que está presente quando nos percepcionamos como limitadas, separadas, vazias e infelizes, e nos voltamos para fora de nós em busca do que nos vai preencher e trazer satisfação. É o modo de funcionamento associado ao medo, que desperta a necessidade de controlar o Mundo à nossa volta e alimenta o apego em relação a tudo o que é habitual, conhecido, confortável.

O “modo problema” é o modo de funcionamento que se alimenta e ao mesmo tempo reforça a ilusão da separação, e nega a possibilidade de as coisas serem diferentes do que sempre foram, ou do que nós, arbitrariamente, decidimos que precisam de ser. É o modo de funcionamento que mantém a nossa mente no passado ou no futuro e nos rouba a disponibilidade para estarmos em relação com a vida que, em toda a sua riqueza e variedade, se desdobra num constante fluir de instantes únicos emergindo do Oceano infinito de possibilidades.

Quando estamos a viver através do paradigma da suficiência, pelo contrário, o nosso modo de funcionamento é o “modo oportunidade”. Nesse modo, reconhecemos este fluir constante e torna-se possível abrirmo-nos à possibilidade de que a Vida se manifeste através de nós, pois abrimos mão da nossa resistência à inevitável e permanente mudança e reconhecemos cada instante como uma oportunidade única. Este é o modo de funcionamento que dissolve a ilusão da separação entre nós e o Mundo e reconhece a ligação entre todas as formas de Vida.

No “modo oportunidade” a nossa atenção está ancorada no momento presente, e, reconhecendo a suficiência de tudo o que existe, não temos necessidade de saber como as coisas vão acontecer para encontrar, em cada situação, a melhor forma de nos colocarmos ao serviço da Vida.

Em cada momento de consciência eu posso escolher como me quero relacionar com a Vida. Os momentos de consciência têm esta riqueza inerente de me trazerem a possibilidade de exercer a minha escolha. Em cada momento de consciência eu posso escolher em qual dos dois modos opero:

  • se opero em “modo oportunidade”, permanecendo em mim própria, no momento presente, disponível para estar com o que quer que se manifeste no meu campo de experiência;
  • ou se opero em “modo problema”, saltando para fora de mim, correndo para o passado ou para o futuro em busca de uma solução que me elimine as crenças e, dessa forma, me evite o contacto íntimo com a experiência do momento presente.

Não acredito numa receita para lidar com as crenças, mas existe uma compreensão e uma forma de nos relacionarmos com as crenças, que é uma consequência natural e inevitável da compreensão e da forma de nos relacionarmos com a própria Vida que resulta da prática d’A Meditação em Acção.

O hábito da escassez vai-nos levar a operar em “modo problema”, vai-nos por às voltas como loucas à procura de uma solução, vai-nos trazer pensamentos de insuficiência em relação à nossa própria capacidade de mudar comportamentos, vai-nos fazer sentir pequenas, frágeis, incapazes e sem esperança.

Em “modo problema” vemos as crenças como entidades isoladas, separadas de nós, e procuramos uma solução para o problema de as eliminar. Sentimos que precisamos de resolver o problema que nos está a impedir de viver uma vida com sentido.

Podemos escolher operar em “modo oportunidade” em relação a esta crenças. Reconhecendo que a vida é um fluxo de oportunidades e não um conjunto de entidades separadas no espaço e no tempo, a crença não é uma entidade real, concreta e objectiva, com existência independente que eu possa “eliminar” de dentro de mim, assim como um cirurgião poderia eliminar uma célula cancerígena.

Aquilo a que chamamos “crença” não é algo para o qual eu possa apontar, antes se manifesta na forma de padrões emocionais, de pensamento e de comportamento, que surgem, no fluxo de oportunidades que é a Vida, de acordo com a ordem Universal que rege todos os fenómenos.

A crença não é um problema separado de tudo o resto que preciso eliminar para poder viver uma vida com sentido. Cada instante de tomada de consciência da manifestação da crença na forma de um pensamento, sentimento, palavra ou acção, é uma oportunidade de eu aprender algo mais sobre mim, de expandir a minha consciência, num processo que vai, ele próprio, trazendo sentido para a minha vida.

Na realidade, nós não lidamos com as crenças!

Nós desenvolvemos a nossa capacidade de estar no momento presente e de operar em “modo oportunidade”.

Nós cultivamos a tranquilidade, a sabedoria e a compaixão.

Nós reflectimos sobre a importância de crescermos para além das crenças e descobrirmos quem realmente somos e o que somos capazes de construir com a nossa Vida.

Nós criamos condições, no nosso dia a dia, para recebermos todo o apoio que seja preciso, bem como para estarmos em relação próxima com outras pessoas comprometidas com o mesmo propósito.

Esta é, afinal, na sua essência, a proposta da prática d’A Meditação em Acção!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *